Depressão Infantil: O Que Saber E Como Tratar Esse Mal Que Afeta Cada Vez Mais Crianças

Muito se fala em depressão atualmente, mas é difícil imaginar que os nossos espoletas que não param quietos possam estar passando por algo assim. Apesar de parecer que é tudo brincadeira, eles já entendem muita coisa e absorvem bastante o clima do ambiente – o suficiente para passar por períodos depressivos. Para esclarecer os papais sobre esse assunto, psicólogas especialistas em crianças revelam as causas, os sintomas e os tratamentos disponíveis para essa situação.

Conheça as principais causas da depressão infantil

Por mais que os nossos pequenos não tenham preocupações com contas, trabalho e outras atribuições da vida de adulto, eles também podem passar por situações frustrantes e traumáticas que têm o poder de desencadear a depressão. Letícia Merschmann, psicóloga com experiência em crianças, contou algumas das razões mais comuns para o problema. “Excesso de crítica dos pais, crianças que sofrem abuso físico ou sexual, excesso de bullying nos ambientes que a criança frequenta – isso acaba diminuindo a autoestima da criança. Outro problema costuma ser a alta exigência dos pais – às vezes a criança está tendo dificuldades escolares ou não está conseguindo atingir a nota dentro da média e essas frustrações seguidas podem iniciar uma depressão”, conta a profissional.

Outros grandes causadores da depressão são as mudanças bruscas que podem acontecer durante a infância. Pode ser a morte de um parente, a chegada de um irmãozinho ou a separação dos pais: o importante é sempre conversar com a criança e nunca ignorar como se ela não entendesse o assunto. “Às vezes morre o cachorro e ninguém fala a respeito. A criança, mesmo uma muito pequena, percebe tristeza – se você diz a ela que não aconteceu nada, não dá espaço para isso ser vivido de forma autêntica, ela pensa que o que sente é errado e não sabe onde colocar aquela dor”, conta a psicóloga infantil Margareth Lury Yoshikawa, que aconselha adequar essa conversa para a linguagem que o pequeno consegue entender. “Nos casos de morte os pais podem falar que eles estão tristes, mas que isso vai passar e, no caso de uma separação, podem falar que o papai foi embora, mas que ele tem a segurança de que nunca vai ser abandonado”, ensina a profissional.

Os sintomas de depressão infantil variam muito: saiba no que ficar de olho

Quando se fala em depressão logo vem à mente aquela imagem de alguém triste, para baixo, mas nem sempre é isso que as mamães vão encontrar em casa na criança com esse quadro. Como elas ainda não entendem muito o que estão sentindo e nem sabem dizer aos pais, os sintomas podem confundir e até se disfarçar de outras doenças.

– Falta de disposição: “A criança começa a ficar emburrada, com falta de energia, não fica muito tempo nas brincadeiras e faz as tarefas de um jeito empurrado – por isso o rendimento escolar pode cair”, conta Margareth Lury Yoshikawa. Com esse quadro muitas mamães podem suspeitar de anemia, mas a verdade é que a criança se sente fraca mesmo com a saúde forte. “Existe energia, mas ela não é colocada para fora e isso por várias razões”, completa a psicóloga.

– Irritabilidade. “Se a criança está ficando irritada ou até agitada muito facilmente e essa é uma atitude que ela não tinha antes, os pais precisam dar atenção a essa mudança de humor do filho”, conta a psicóloga Letícia Merschmann, falando de um tópico que pode ser simplesmente confundido com birra ou até hiperatividade.

– Problemas estomacais: “Às vezes é uma dor abdominal ou a criança não quer comer”, diz Letícia Merschmann.

– Sintomas claros: “A depressão infantil também pode ser parecida com a adulta no sentido de que a criança pode ficar com vontade de se isolar, com a autoestima um pouco mais baixa e com falta de interesse em fazer amizades”, revela Letícia Merschmann.

Tratamento da depressão infantil inclui os pais e muita conversa

Segundo Letícia, a primeira coisa que os pais devem fazer quando notam que a criança está com sintomas de depressão é levá-la a um psicólogo. “Às vezes os pais podem achar que ela tem depressão e na verdade não tem ou podem achar que é algo leve, mas é grave, então fica difícil para eles dizerem com certeza”, explica. A psicóloga conta que no consultório de um bom profissional existem formas de diagnosticar a depressão além desses sintomas. “A gente têm testes, desenhos projetivos e um sistema de avaliação psicológica”, revela. O papel dos pais na terapia começa já nesse momento de diagnóstico. “Conforme a gente conversa com os pais sobre o histórico da criança, a gente consegue perceber o que há naquele ambiente que pode estar favorecendo a depressão”, conta.

Depois que o diagnóstico é confirmado, as opções de tratamento dependem muito da idade. “Se tem quatro anos de idade, quando é difícil ter uma fluência verbal, a gente parte para os desenhos e para as atividades lúdicas”, conta Letícia Merschmann, explicando que isso trabalha o vínculo com aquela criança para que ela aprenda novas formas de lidar com os pensamentos e crenças interiores. “Pouco a pouco a gente quebra essas crenças – como as de que ela é feia e burra, por exemplo, e vai mostrando para elas que aquilo não é verdade”, diz. Já quando a criança é maior, com seus sete ou oito anos, Letícia conta que a identificação do problema pode até ser feita através de desenhos, mas que as coisas fluem muito mais na conversa.

Também existem outras terapias alternativas e Margareth Lury Yoshikawa é especialista em uma delas. A psicóloga é pioneira no Brasil em Sandplay, que como o próprio nome já diz é uma brincadeira com areia. “Temos uma caixa de areia onde as crianças desenham o que estão sentindo – é quase uma fotografia da psiquê”, conta. A vantagem de procurar por terapias como essa é que elas tratam dos problemas de forma lúdica enquanto mantém a criança entretida pela atividade.

Para as mamães que podem estar preocupadas com uma possível medicação, Margareth revela que isso só acontece em casos raros. “Quando existem traumas ou situações muito danosas, aí poderia entrar a medicação para segurar a ansiedade”, revela a psicóloga, que alerta que essa prescrição não pode ser feita por qualquer um. “É importante que os pais levem a criança em um psiquiatra infantil e não em um psiquiatra comum – ele vai saber se realmente precisa e vai dar a dosagem correta”, diz.

Além do trabalho com a própria criança no consultório, os papais também precisam ficar alertas porque vão ser convocados para ajudar. “A gente tenta também conversar com os pais para identificar o que eles podem fazer para ajudar. Não é só a terapia que vai funcionar: o ambiente de casa é um grande favorecedor de melhora e cura da depressão”, explica Letícia Merschmann. A psicóloga ainda revela que todos os fatores da doença que vêm de casa ou de uma situação mais grave, precisam ser comunicados aos pais. “Se for excesso de crítica, falta de reforço positivo, abuso físico, a desconfiança ou confirmação de abuso sexual através da própria criança… eles precisam saber de tudo que pode estar facilitando a depressão”, conta.

Confira o que fazer para evitar que a depressão infantil chegue ao seu filho

Para Margareth Lury Yoshikawa, o primeiro passo para evitar que a depressão apareça é dar à criança a possibilidade dela viver as emoções. “É preciso conversar e aceitar as emoções dela sem nunca negar o que está acontecendo de ruim na casa – do contrário ela vai passar a não confiar no que ela sente’, diz. A psicóloga também lembra que essa mudança precisa começar de uma forma sincera nos pais. A criança percebe tudo que acontece na família, então os pais precisam aprender a falar e se expressar.

Segundo Letícia, uma atenção especial para o ambiente escolar também é necessária. “A escola é o lugar onde a criança passa uma boa parte do seu tempo, às vezes o dia inteiro, então é onde esses sintomas vão aparecer além da casa”, diz. A psicóloga acha importante os pais frequentarem as reuniões escolares para saber como que a criança está indo – não só nas notas, mas no relacionamento com os amiguinhos: “É muito importante ouvir o que os professores têm a dizer nas reuniões de pais e mestres porque às vezes o pequeno não fala, seja porque ele é fechado ou porque alguém ameaçou”, conta.

Outra dica muito válida para os papais é tomar cuidado com o excesso de críticas. Às vezes queremos tanto o bem dos nossos pequenos que eles acabammos excedendo nas críticas e diminuindo os elogios. É importante ter um equilíbrio. “Dentro do consultório a gente vê pais que colocam rótulos na criança, como o de que ela é avoada ou burra, o que é péssimo para a autoestima”, revela Letícia.

A dica final é estar prestar atenção máxima na criança. “É importante estar atento a abusos físicos e sexuais, que às vezes não acontecem dentro de casa, mas podem vir de um parente ou amigo da família”, conta. Esse olhar atento não se restringe apenas ao corpinho, mas a tudo o que os nossos pequenos sentem. “O diálogo entre pais e filhos é o que mais previne a depressão. Esse vínculo com a criança facilita ficar por dentro da vida dele como um todo”, diz a psicóloga.

Margareth Lury Yoshikawa – Psicóloga clinica com especialização em Psicossomática e Psicologia hospitalar. Professora supervisora de Psicologia Junguiana do IJEP e membro didata e fundadora do Instituto Brasileiro de Terapia Sandsplay.

Letícia Merschmann Marques – Psicóloga cognitiva comportamental e pós graduanda em Neuropsicologia na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP). Para saber mais sobre o seu trabalho, acesse “www.psicologosberrini.com.br“.

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